Quinze dias de missão, dez de prova, nove etapas e quatro pontos de partida. O que foi a Volta a Angola 2026 para a Selecção Nacional de Cabo Verde.
Juntar uma selecção num arquipélago começa por ser um exercício de logística. A comitiva nacional partiu a 5 de Outubro, em três grupos: de São Vicente, do Sal e da Praia, com ponto de encontro em Lisboa. Na capital portuguesa juntaram-se ao grupo Ana Rita Vigário, Seleccionadora Nacional, e o ciclista Leandro Brito, que viajou de Itália, onde reside. Do Sal seguiu também Idelfrides Soares, o Didi, que nesta missão acumulou as funções de chefe de missão e de mecânico da equipa.
A chegada a Luanda foi a 6 de Outubro. Nélio Cruz, que por razões operacionais teve de viajar um dia depois, chegou a 7 — e só então a comitiva ficou completa. O regresso a Cabo Verde fez-se a 19 de Outubro.
Ao todo, quinze dias de missão, quatro a mais do que os onze inicialmente projectados.
A missão teve o primeiro problema ainda antes da primeira pedalada: a bicicleta de Klisman David chegou a Luanda com o quadro partido e uma roda amolgada. Numa prova por etapas a bicicleta não é um acessório: é a ferramenta de trabalho do atleta, afinada às suas medidas. E um quadro partido não se repara no local.
A resposta foi colectiva. Staff, direcção e os próprios atletas procuraram alternativas em Luanda, e na véspera do arranque conseguiu-se o aluguer de uma bicicleta. Não era a solução ideal: obriga a readaptar medidas e posição, e isso sente-se numa prova com etapas acima de 150 quilómetros. Mas garantiu o essencial — os oito convocados partiram.
A 5.ª edição da Volta a Angola disputou-se entre 9 e 18 de Outubro: dez dias, nove etapas e um dia de descanso, com cerca de 1 185 quilómetros. Alinharam clubes e selecções interprovinciais angolanas e as selecções nacionais da Guiné-Bissau, RD Congo, Zimbabwe, Namíbia, São Tomé e Príncipe, Mali e Cabo Verde.
O terreno não deu tréguas: a Serra da Leba, a subida da Umbia a 12%, a Fenda da Tundavala, o Paredão do Sumbe a 14%, uma etapa de 180 quilómetros, um contra-relógio individual de 28 e, a fechar, o circuito de Luanda. A isso juntaram-se o calor e a humidade, bem diferentes das condições em que se treina em Cabo Verde. Dos 81 ciclistas classificados no prólogo, apenas 34 chegaram ao fim da Volta.
Venceu Bruno Aráujo (Interclube), em 23:43:32, à frente de Igor Silva (Jair Transporte) a 9:39 e de Diego Albano (Jair Transporte) a 10:46. Bruno Aráujo levou também a camisola da montanha; a camisola dos pontos ficou com Jorge Gonçalves e a camisola branca de sub-23 com Diego Albano, ambos do Jair Transporte. Por equipas venceu o Interclube.
Os Tubarões Azuis terminaram a Volta em 4.º lugar na classificação geral por equipas, a 1:38:14 do Interclube, atrás apenas das três formações angolanas mais fortes — Interclube, Jair Transporte e FBE. Foi a melhor selecção estrangeira da prova, à frente da Namíbia, de São Tomé e Príncipe, do Zimbabwe e da Guiné-Bissau.
Individualmente, Eliezer Soares fechou a Volta em 10.º da classificação geral, a 23:41 do vencedor. Nélio Cruz foi 29.º e Leandro Brito 30.º, num total de 34 classificados.
A selecção esteve em prova todos os dias e colocou ciclistas entre os dez primeiros em cinco etapas diferentes.
Eliezer Soares (Sal, 1995) foi o melhor cabo-verdiano em todas as classificações finais. Abriu a Volta com um 4.º lugar no prólogo, a 13 segundos do vencedor, rodando a 51,43 km/h; foi 7.º no contra-relógio de Benguela, 5.º na 8.ª etapa e 6.º no circuito final de Luanda. Terminou 16.º nas metas volantes e 18.º na montanha.
Nélio Cruz (São Vicente, 1996) foi 15.º na 2.ª etapa, a primeira de estrada, e repetiu o 15.º lugar na 8.ª — no dia em que, pela primeira vez em muitos, correu sem problemas mecânicos, depois de quatro dias seguidos com furos. No circuito final foi 9.º.
Leandro Brito (2005, sub-23, reside em Itália) foi 10.º na 3.ª e na 7.ª etapas e 11.º no contra-relógio, depois de ter sido 30.º no prólogo — a maior progressão da equipa ao longo dos dez dias. Terminou 19.º na montanha.
Gilberto Dias (Santo Antão, 2005, sub-23) foi 10.º na 4.ª etapa, com chegada na subida da Umbia, 19.º na 5.ª e 18.º na 7.ª. Chegou à 8.ª etapa como 23.º da classificação geral.
Klisman David (São Vicente, 1996) correu toda a Volta com a bicicleta alugada em Luanda, e chegou à 8.ª etapa.
Rúben Lopes (Santo Antão, 1999) foi 26.º na 5.ª etapa e esteve em prova até ao último dia, terminando o circuito final a duas voltas.
Miklos Mota (São Vicente, 2007), o mais novo da comitiva, correu as duas primeiras etapas. Uma queda deixou-lhe a bicicleta com uma avaria irreparável, e não pôde prosseguir a partir da 3.ª.
Nadir Lopes (Santo Antão, 2000) cumpriu as cinco primeiras etapas e não alinhou no contra-relógio, por problemas físicos.
Ana Rita Vigário, Seleccionadora Nacional, fez nesta missão muito mais do que escolher a equipa e orientá-la em prova. Durante os dez dias de competição foi dela a logística de cada dia de corrida: a preparação da etapa seguinte, os abastecimentos, o material de prova, a rotina de uma equipa que dorme numa cidade e parte de outra. Foi também ela quem assegurou a coordenação permanente com os elementos da organização ao longo de toda a prova. A isso somou o que não se mede: o acompanhamento e o apoio moral aos ciclistas, dia após dia, numa prova dura, com atletas jovens e longe das famílias. Esta participação apoiou-se, em grande parte, no trabalho dela.
Idelfrides Soares, o Didi, chefe de missão e mecânico, teve a seu cargo o material. Todos os dias, antes e depois de cada etapa, foi dele a tarefa de rever, limpar, afinar e reparar as bicicletas, e garantir que estavam prontas para a manhã seguinte. Numa Volta com estradas difíceis, furos sucessivos e uma bicicleta alugada que foi preciso adaptar, essa é a diferença entre partir e não partir.
A Bruno e a Vânio, que em Angola asseguraram o apoio logístico e a recuperação dos atletas ao longo de toda a estadia, fica igualmente o reconhecimento da Federação.
O mesmo reconhecimento vai para os condutores da comitiva. João Paulo deu um apoio importante na tarefa de reabastecimento durante a prova — a entrega de água e de alimento aos ciclistas em andamento, que numa etapa longa decide tanto como as pernas. E Jacob foi fundamental no suporte logístico da equipa ao longo de toda a estadia.
A Federação Cabo-verdiana de Ciclismo faz um balanço muito positivo desta participação, e fá-lo tendo em conta as condições em que ela foi montada.
Este foi o primeiro compromisso internacional da Selecção Nacional sob a nova direcção da Federação, e toda a participação foi preparada em três semanas. Nesse intervalo foi preciso convocar e reunir atletas de três ilhas e dois países, tratar de documentação, transporte e material, produzir os equipamentos oficiais e fechar o financiamento da missão — tudo isto encontrando os assuntos por tratar e, por isso, com custos acrescidos em relação ao que uma preparação normal teria exigido.
Quanto aos objectivos desportivos traçados à partida, foram cumpridos: a entrada de um cabo-verdiano no top 10 da classificação geral e o estatuto de melhor selecção estrangeira da Volta. Ficou por alcançar o terceiro, vencer uma etapa, que fica como objectivo para as próximas participações.
Há ainda um resultado que não aparece nas classificações: a selecção esteve em prova do primeiro ao último dia, resolveu no terreno os problemas que lhe apareceram e representou Cabo Verde num pelotão em que dois em cada três ciclistas não chegaram ao fim.
Esta participação não teria sido possível sem quem a sustentou.
A Federação Cabo-verdiana de Ciclismo agradece ao Banco BAI Cabo Verde e à SITA, parceiros que vêm acompanhando o ciclismo nacional de forma continuada, e ao Instituto do Desporto e Juventude (IDJ), pelo apoio que tornou a missão financeiramente viável.
Agradece à EM3, que produziu em tempo recorde os equipamentos oficiais da selecção, com as cores e as estrelas da bandeira nacional, o emblema da Federação e as marcas dos parceiros, a tempo de a equipa se apresentar com eles logo à chegada a Luanda.
Agradece à Federação Angolana de Ciclismo o convite para a terceira participação de Cabo Verde na prova e o acolhimento ao longo dos dez dias de competição.
Agradece à AG Tour a disponibilidade e a dedicação na procura de soluções de viagem — num calendário apertado e com a comitiva a partir de quatro pontos diferentes, essa foi uma peça essencial para que a selecção chegasse a Luanda.
E agradece à Turiscar todo o apoio logístico terrestre na Praia, nas deslocações de e para o aeroporto.
Uma palavra de agradecimento ao Embaixador de Cabo Verde em Angola, pelo acompanhamento e pela disponibilidade para com a comitiva nacional, e aos serviços de fronteiras em Cabo Verde, pela colaboração durante todo o processo das viagens.
Por fim, aos oito atletas, à Seleccionadora Nacional Ana Rita Vigário e ao chefe de missão e mecânico Idelfrides Soares, que vestiram a camisola nacional e levaram a bandeira de Cabo Verde a dez dias de estrada angolana.
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